Conheça o artista “Bonga Mac” e sua historia no Graffiti

Seu estilo, inclinado a questões sociais, culturais e étnicas, está presente em seus murais

Donizete de Souza Lima, paulista, empresário de Bonga Produções conhecido como Bonga Mac, arte educador e co-autor do livro Tinta Loka Street Book. Seu primeiro contato com o graffiti foi em meados dos anos 90, por influência do movimento Hip Hop, o que o motivou a reproduzir as ideias passadas em capas de discos e letras de músicas.

A partir de lá, entre trabalhos autorais e comerciais, desenvolveu e participou de projetos notáveis enquanto grafiteiro e, a partir dos anos 2000, como arte educador, atuou em diferentes projetos para incentivo da cultura Hip Hop e arte urbana junto a crianças e adolescentes por meio de oficinas, reuniões, debates e mostras.

Seu estilo, inclinado a questões sociais, culturais e étnicas, está presente em estados como São Paulo, Distrito Federal, Bahia, Mato Grosso, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Sergipe, Rio Grande do Sul e Paraná. E em países como Chile, Canadá, França, Bélgica, Itália e Equador. Além de possuir seus trabalhos retratados em diferentes artigos e livros.

Hoje, assina produtos da marca URGH (criada em 1982), o qual é integrante da equipe da marca, é membro das Crews Mac (originária da França) e X-Men (originária de Nova York) e desenvolve projetos voltados à arte urbana e graffiti. Recentemente faz parte da equipe da marca Footwear Land Feet Skateboard Shoes e Prem1er Pro.

Veja nossa entrevista a Bonga Mac :


1 – Todo mundo que acompanha seu trabalho deve ter a curiosidade de como surgiu seu interesse pela arte, você pode contar pra gente ?

Por volta dos meus 6 a 7 anos eu vi o meu pai tentando reproduzir uma planta baixa da nossa casa e das casas vizinhas, quando algum vizinho pedia para fazer. Eu achava aquilo sensacional. Depois, a partir dos meus 7 anos eu ficava desenhando os meus brinquedos e quando cheguei na minha adolescência, reproduzia pôster de uma coleção de revistas sobre aviões e helicópteros de guerras. Na escola eu descobri que os meus desenhos podiam ser vendidos para colegas e com o dinheiro eu podia comprar doces.

2 – Quem ou quais circunstâncias te levaram a arte como uma carreira  a ser seguida ?

Eu acompanhava a minha mãe no Centro de São Paulo para fazer exames médicos. No início dos anos 80, como eram ônibus que faziam trajetos de longa distância, era possível ver intervenções de estêncil, pixações e murais dos mais variados artistas em boa parte da cidade. Isto me instigou a curiosidade.

Percebi também que perto das estações de Franco da Rocha, Caieiras e Perus, havia intervenções chamadas “Esquema” e “Moisa”, (que misturavam muralismo e estêncil). Era o princípio de tudo aqui. Em Caieiras (onde eu moro), existia um grupo da pixação chamado “k-raio” que, por influência das revistas como “Chiclete com Banana”, eles também reproduziam nas pixações os personagens de Glauco e Angeli. Eu achava interessante porque quase toda semana tinha novidades.

Nos anos 90, eu era office boy do Mappin¹ e conseguia ter uma percepção mais ampla da cidade, o que me influenciou para entrar na pixação. Me organizei com alguns amigos e criamos o codinome “Os Turcos”. Com o passar do tempo, observando nas ruas outros artistas como “A Coisa”, “Radinho” e “Topeiras”, resolvemos fazer grapixos ou pixo arte, como era chamado na época.

Durante este tempo o hip hop estava se desenvolvendo nas periferias de São Paulo. Em 1993 fundamos em Perus² a posse³ “Quilombo H”, que reunia b-boys, grafiteiros, Djs e Mc’s da região noroeste de São Paulo. Chegamos a ter mais de cem membros. Neste meio tempo surgiu o “Área 1” (crew de graffiti), onde misturávamos vários tipos de materiais, até compressor, para fazer as pinturas nas ruas.

Depois de certo tempo, por volta dos anos 2000, pensando na ampliação de um coletivo maior, montamos a crew, o “SDT Crew – Sindicato das Tintas”, que também tinha como membros “Shock”, “Memória”, “Pardal”, “Derf”, “Feone”, “Guetus” e outros. Já pintava bastante e organizava alguns encontros de graffiti e ações sociais. Com o passar do tempo a “SDT Crew” se desfez e, por volta de 2001, o “Tinta Loka Crew” é fundado, tendo como membros eu, “Bart”, “Derf” e “Rek”.

Neste mesmo período, surgiu o convite para desenvolver uma oficina de graffiti em Caieiras, pelo Projeto Parceiros do Futuro da Secretaria Estadual de Cultura de São Paulo. E por volta de 2005, surgiu o convite para trabalhar no projeto Criança Esperança, por meio do Instituto Sou da Paz. A partir daí, alio a carreira artística com a arte educação.

3 – Quais foram os maiores desafios e dificuldades como artista ?

Um dos desafios foi lidar com a minha falta de organização e autogestão da carreira artística. É importante ter organização e sempre buscar desenvolver da melhor forma a sua técnica, estilo, ter mais atitude e responsabilidade na caminhada.

Um das dificuldades é migrar a minha linguagem para o digital. Percebo que não é muito a minha.

E algo que percebo muito na cena, uma das dificuldades é o preconceito que a cultura urbana recebe. As pessoas ainda infantilizam a linguagem. Não se leva a sério o que fazemos.

Um dos desafios é ter o pé no chão porque os processos são transitórios. E que o artista é egocêntrico por natureza. Partindo deste princípio, observo que ainda falta uma melhor união e fortalecimento desta cultura. Ainda nos minimizamos nas divisões do individualismo.

4 – Como foi a definição do estilo que você gostaria de trabalhar ?

Eu sempre gostei de me inspirar em referências fotográficas que retratassem o cotidiano, como por exemplo, nos trabalhos de Sebastião Salgado.

Com o tempo percebi que poderia mudar e buscar várias referências para criar um personagem e estilo de pintura.

Uma hora posso fazer a reprodução de uma imagem, como em outra a junção de ditados populares e a analogia com os instintos animais, fazendo reflexões ou brincadeiras. Na verdade não me vejo com um estilo e sim como um camaleão. Busco sempre me reinventar e buscar uma forma diferente nas minhas propostas de trabalho.

5 – De onde vem seu sopro de inspiração ?

Do cotidiano. Das percepções sobre questões sociais, políticas e humanas.

6 – Quais artistas do cenário atual você admira ?

Ixi! Ai lascou! É muita gente. Vou começar pelos internacionais: MrDheo, Nychos, Koka, Smug, Lazoo, Tasso, El Seed, Rasko, MadC, Chiro One, Kongo Mac, Ceet, Alex1, Soe Mac, Pwoz Mac, Utopia, Helio Bray e Odeith.

Na América Latina: Cof, OsMontania, Zier, Mr.Garek, Kno-Delix, Gris, Jazon, Pessimo, Entes, Basic, REC, Ske, 14 Brillos.

De stencil: Armamento Visual

E os nacionais: Fhero, Stan Bellini, Valdi, Mirage, Pardal, Nick Alive, Kajaman, Viber, AKI, Origi, Image, Ment, Amazon (também conhecido como Arabe), Shock O Maravilha, Feik, Chivitz, Markone, Tito Ferrara, Dario Gordon, Tioch, BOB, DGOH, Joks, Mignore e Bigod. De letra eu gosto do Sneck, Dninja, Borgo, Does, Ícone K., Aren, Vespa, Bart, Ed Mun, Vejam, Salmos, Lokones, ZN Lovers, Binho, Ise e Biofa.

7 – O que você ainda sonha em realizar com a sua arte ?

Pintar alguns prédios e visitar mais países levando exposições.

8 – Quais foram as coisas boas, que a sua arte te trouxe ?

Maturidade. Possibilitou fazer intercâmbios que me fez conhecer pessoas interessantes e fazer amizades. Desenvolver a educação por meio da arte. Ajudar pessoas. Empreender. E o mais recente, produzir a publicação Tinta Loka Street Book junto a Tamires Santana.

9 – Se você não fosse artista, qual séria o plano b ?

Ser músico, viver de música, principalmente dentro da cultura Hip Hop.

10 – Alguns artistas curtem ouvir músicas durante o processo criativo, com você funciona da mesma forma? E na sua playlist o que não pode faltar ?

Sim. Original Funk, Reggae e muito RAP. Mas gosto de Black Music em geral.

11 – Deixe uma mensagem para os nossos leitores.

Três mensagens:

O conservadorismo e o ódio trouxeram um dos maiores malefícios da história da humanidade e atualmente vivemos em um momento obscuro do pensamento humano. A diversidade, o respeito e o amor são os maiores instrumentos para qualquer transformação. A arte pode ser a maior ferramenta que podemos utilizar principalmente para as próximas gerações, para gerar reflexão e muitas mudanças.

Como fruto da realização de um sonho e do que a arte me proporcionou, deixo a dica para conhecerem e adquirem o livro Tinta Loka Street Book de Bonga Mac e Tamires Santana (Ed. Literarua), disponível em livrarias como Livraria Cultura, Martins Fontes, Literarua, Saraiva, Amazon ou Cia. dos Livros. Facebook: www.facebook.com/LivroTintaLoka | www.tintalokastreetbook.com.br

E lembrem-se: o universo é maior que o nosso Sistema Solar, portanto, “a verdade está lá fora”.


Mais informações sobre Bonga Mac :
FacebookBonga Mac
Instagram : @bonga_mac
Siteoriginalbonga.blogspot.com.br

 

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